A maioria das "Claudias" são donas de casa - a família na fotografia de moda em Claudia (1960)

 

 

Lançada no mercado brasileiro em 1961 e em circulação até os dias atuais, Claudia se desenvolveu imbricada à modernização da sociedade brasileira e a constituição da sociedade de consumo. Voltada para a mulher de classe média alta emergente, a revista vinha com o objetivo de ser um guia para a “mulher moderna”. Entretanto, este ideal de modernidade difundido pela publicação funcionava como um verniz, ou seja, um modelo de feminilidade moderno e cosmopolita na aparência, mas que ainda é marcada pelo ideal de domesticidade da “rainha do lar” do período anterior.

Deste modo, a maternidade é um tema recorrente em Claudia. Além de anúncios publicitários de produtos infantis, como alimentos e brinquedos, é possível observar constantemente matérias que buscam orientar, aconselhar, informar sobre a educação desde bebês até adolescência. Segundo Isabella Cosse (2010), a partir dos anos 1960 diversos movimentos incidiram sobre a configuração das identidades masculinas e femininas no plano familiar. Contudo, o cuidado dos filhos continua centradas no papel da mãe. 

Além de reportagens e anúncios, é possível observar como os editoriais de moda reforçam o valor da maternidade. Diversas edições da revista trazem fotos de mulheres e crianças fotografadas usando roupas combinando de forma a retratar mães e filhas. Apesar da prática “tal mãe, tal filha” ser encontrada em fotos de roupas de banho ou trajes diários, esta ocorre com mais frequência em editoriais de moda íntima, que no periódico ficam restritas às camisolas e pijamas durante a década de 1960. Claudia, enquanto guia para a “mãe moderna”, indicaria os melhores bens de consumo e serviço para a realização de uma maternidade bem sucedida dentro dos moldes de família daquele período.

Neste sentido, tais imagens reforçam que a principal responsabilidade sobre os filhos caía sobre a mãe, encarregada de cuidar de todas as necessidades dos filhos, corroborando para o discurso da maternidade enquanto algo natural e intrínseco para as mulheres.

 Por Gabriela Cabral, @gabi.scabral


Para saber mais:

BESSE, Susan. Modernizando a desigualdade: reestruturação da ideologia de gênero no Brasil. São Paulo: Edusp, 1999.

COSTA, Maria Paula. Entre sonhos e consumo: as representações femininas na Revista Claudia (1961-1985). 2009. Tese (Doutorado em História e Sociedade) - Faculdade de Ciências e Letras, Universidade Estadual Paulista, Assis, 2009.

 MORGADO, Débora. Domesticidade e consumo: experiências modernizantes nas enciclopédias femininas da Abril Cultural (1967-1973). 2021. Tese (Doutorado em História) – Centro Ciências Humanas e Educação, Universidade do Estado Santa Catarina, Florianópolis, 2021.

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